La Iberofonía
Equipo de edición de La Iberofonía, medio de comunicación del Ateneo Iberófono Juan Latino.
Angola procura no Vietname uma via de cooperação técnica para acelerar a modernização agrícola, reduzir vulnerabilidades alimentares e diversificar uma economia ainda marcada pelo peso dos hidrocarbonetos. Uma delegação angolana chefiada pelo ministro da Agricultura e Florestas, Isaac Francisco Maria dos Anjos, iniciou uma visita de trabalho ao Vietname no quadro do Plano de Acção de Cooperação Agrícola 2025-2030, concebido para transformar os entendimentos políticos entre Luanda e Hanói em projectos produtivos concretos.
A agenda inclui reuniões com autoridades vietnamitas, centros de extensão agrícola, institutos de investigação, empresas e unidades de produção. O objectivo angolano é conhecer experiências aplicáveis em extensão rural, transferência tecnológica, melhoramento de sementes, cultivo de arroz irrigado, silvicultura, aquicultura, produção de rações, transformação de produtos pesqueiros e desenvolvimento de cadeias de valor ligadas ao café, ao chá e a outros sectores agroindustriais.
A deslocação tem uma dimensão económica evidente. Angola possui vastas áreas cultiváveis e condições naturais favoráveis, mas continua a enfrentar baixa produtividade, dependência de importações alimentares, insuficiência de infra-estruturas rurais e dificuldades de acesso a tecnologia, financiamento, máquinas e formação. A cooperação com o Vietname procura responder precisamente a esses pontos: levar conhecimento técnico ao terreno, formar extensionistas e agricultores, criar modelos demonstrativos e transformar potencial agrícola em produção estável.
O interesse vietnamita também é estratégico. Hanói apresenta-se como parceiro do Sul global capaz de transferir experiência agrícola para países africanos sem reproduzir necessariamente os modelos tradicionais de cooperação euro-atlântica. O Vietname passou, em poucas décadas, de país com problemas graves de insegurança alimentar a exportador relevante de arroz, café, pescado e produtos agroindustriais. Essa trajectória tornou-se uma referência para Estados que procuram aumentar produtividade rural sem depender apenas de assistência financeira externa.
Um dos pontos concretos da agenda é a possível reactivação do projecto de arroz em Canzar, na província angolana da Lunda Norte, cuja viabilidade já tinha sido estudada com apoio vietnamita em 2015. Luanda procura apoio em técnicas de cultivo, irrigação, arroz, mandioca, soja e desenvolvimento florestal, áreas consideradas prioritárias no roteiro bilateral. A formação de técnicos agrícolas angolanos, tanto em Angola como no Vietname, surge como condição central para que a cooperação não fique limitada a visitas diplomáticas ou memorandos.
A parceria insere-se numa aproximação bilateral mais ampla. Em 2025, a visita do Presidente vietnamita Luong Cuong a Angola abriu caminho a novos entendimentos agrícolas. Desde então, os dois países têm procurado acelerar mecanismos de execução, combinando cooperação institucional, investimento produtivo e capacitação técnica. O Ministério da Agricultura e Florestas de Angola assinala que a visita agora em curso decorre precisamente da necessidade de pôr em prática esse plano.
Para Angola, a agricultura deixou de ser apenas um sector social ou rural. A segurança alimentar tornou-se uma variável de soberania económica. Quanto maior for a dependência de importações de alimentos e de receitas petrolíferas, menor será a margem de manobra perante choques externos, flutuações cambiais, crises logísticas ou aumentos internacionais de preços. A aposta agrícola liga produção nacional, emprego rural, estabilidade social, balança comercial e capacidade do Estado para reduzir vulnerabilidades estruturais.
A cooperação com o Vietname ganha ainda valor para a Iberofonia por envolver uma potência lusófona africana e uma potência asiática com experiência consolidada em desenvolvimento agrícola. O eixo Angola-Vietname mostra que parte das respostas para a transformação produtiva africana pode surgir fora dos circuitos habituais de financiamento e assistência técnica. A agenda combina conhecimento, investimento, formação, produção alimentar e projecção internacional de ambos os países.
O alcance real da parceria dependerá agora da passagem para instrumentos executáveis: projectos-piloto, missões técnicas, financiamento, envio de especialistas, identificação de províncias agrícolas prioritárias e integração de pequenos produtores nas cadeias de valor. Se essas etapas avançarem, a cooperação agrícola entre Angola e Vietname poderá transformar-se num caso relevante de articulação Sul-Sul dentro do espaço económico ligado à África lusófona.
Ministério da Agricultura e Florestas de Angola, VietnamPlus, O País, VOV, Prensa Latina.


