La Iberofonía
Equipo de edición de La Iberofonía, medio de comunicación del Ateneo Iberófono Juan Latino.
O Brasil abriu uma nova etapa na sua relação com a China ao activar a isenção recíproca de vistos para cidadãos chineses, ao mesmo tempo que o Governo de Luiz Inácio Lula da Silva lançou uma estratégia nacional contra o crime organizado. As duas decisões parecem pertencer a áreas distintas — turismo e segurança —, mas convergem numa mesma leitura de Estado: o Brasil procura ampliar a sua projecção internacional enquanto tenta recuperar capacidade interna sobre território, fronteiras, prisões, finanças ilícitas e circulação económica.
A primeira medida tem uma dimensão diplomática evidente. Segundo TeleSUR, os cidadãos chineses titulares de passaportes ordinários podem entrar no Brasil sem visto desde 11 de Maio de 2026, com uma estadia contínua máxima de 30 dias. A decisão assenta no princípio da reciprocidade, uma vez que a China já permite a entrada de brasileiros sem visto desde 1 de Junho de 2025, também por até 30 dias. A isenção brasileira estará em vigor até 31 de Dezembro de 2026.
O Governo brasileiro enquadra a medida como parte de uma estratégia mais ampla de promoção do país no mercado chinês. O Ministério do Turismo afirma que a isenção deverá impulsionar o fluxo de turistas chineses e fortalecer o intercâmbio cultural, turístico e económico, especialmente no contexto do Ano Cultural Brasil-China. A medida abrange viagens de turismo, negócios, actividades artísticas, culturais, recreativas e desportivas, visitas familiares, conferências, congressos e reuniões.
A importância económica é directa. A China não é apenas um emissor turístico em crescimento; é também o principal parceiro comercial do Brasil e um actor central nas cadeias de fornecimento, tecnologia, infra-estruturas, energia e agroindústria. Facilitar a entrada de cidadãos chineses significa favorecer missões empresariais, investimento, feiras, turismo de alto valor, contactos culturais e novas operações comerciais. O próprio Ministério do Turismo brasileiro afirma que prepara o sector para receber esse público através do programa Approved Destination Status, com 325 empresas habilitadas para atender grupos chineses.
No entanto, a abertura externa surge no mesmo momento em que o Estado brasileiro tenta reforçar o controlo interno. Segundo Xinhua, Lula lançou em Brasília o programa “Brasil Contra o Crime Organizado”, uma estratégia nacional para combater organizações criminosas, as suas estruturas financeiras e as cadeias de comando, através de acções coordenadas entre União, estados e municípios.
O plano prevê uma inversão directa de 1.060 milhões de reais, cerca de 215 milhões de dólares, em 2026, além de uma linha de crédito adicional de 10.000 milhões de reais, aproximadamente 2.030 milhões de dólares, destinada a fortalecer a segurança pública com tecnologia, veículos, drones e modernização de prisões. O programa inclui quatro eixos: combate financeiro ao crime organizado, segurança no sistema penitenciário, melhoria da investigação de homicídios e enfrentamento do tráfico ilegal de armas e explosivos.
A leitura geopolítica é clara: um país que ambiciona maior protagonismo internacional precisa de demonstrar capacidade de controlo interno. O crime organizado brasileiro não é apenas um problema policial. Afecta portos, fronteiras, Amazónia, rotas fluviais, prisões, periferias urbanas, tráfico de armas, exportações ilícitas, mineração ilegal e cadeias financeiras transnacionais. Quando Lula afirma que o território deve ser devolvido ao povo brasileiro, está a reconhecer que certas áreas do país funcionam como espaços de soberania disputada.
O ponto sensível está na articulação entre abertura económica e segurança. O Brasil quer atrair visitantes, investimento e cooperação com a China, mas também precisa de garantir que as suas estruturas internas não sejam capturadas por redes criminosas. A diplomacia económica exige estabilidade logística, segurança urbana, controlo portuário, inteligência financeira e capacidade penitenciária. Sem isso, a expansão internacional fica vulnerável a economias paralelas.
Há ainda uma dimensão iberófona. O Brasil é a maior potência lusófona e um dos principais nós da relação entre China, mundo português e Iberoamérica. A isenção de vistos com a China reforça o seu papel como interlocutor privilegiado de Pequim; o plano contra o crime organizado mostra a tentativa de proteger o território sobre o qual essa projecção assenta.
O Brasil procura, portanto, mover-se em duas frentes simultâneas: abrir portas à China e fechar corredores ao crime organizado. Uma política olha para fora, outra para dentro. Mas ambas respondem à mesma necessidade estratégica: consolidar o Brasil como potência com capacidade de atracção, circulação, segurança e comando territorial.
Fuentes: TeleSUR, Ministerio de Turismo de Brasil y Xinhua.


