La Iberofonía
Equipo de edición de La Iberofonía, medio de comunicación del Ateneo Iberófono Juan Latino.
Angola voltou a colocar a China no centro da sua estratégia de captação de investimento. O governador de Icolo e Bengo, Auzílio Jacob, apelou a empresários chineses para investirem na província durante a abertura do Fórum de Investimentos e Oportunidades, realizado na Zona Económica Especial Luanda-Bengo. A iniciativa reuniu centenas de empresários chineses e empresas angolanas, num momento em que Luanda procura transformar a relação com Pequim para além do petróleo, da dívida e das grandes infraestruturas.
A mensagem política é clara: Icolo e Bengo quer posicionar-se como território de entrada para capital produtivo chinês. A província, criada recentemente no quadro da reorganização administrativa angolana, procura afirmar-se como espaço de crescimento industrial, logístico, agrícola e empresarial. A proximidade à capital, à Zona Económica Especial e aos corredores de transporte dá-lhe uma vantagem estratégica dentro da economia angolana.
A presença chinesa em Angola não é nova. Pequim tem sido, há anos, um dos principais parceiros financeiros, comerciais e infraestruturais do país. A novidade está na tentativa de deslocar parte dessa relação para um modelo mais descentralizado, com províncias a disputar investimento directo, projectos industriais e parcerias empresariais. O apelo de Icolo e Bengo reflecte essa nova fase: menos dependência exclusiva de grandes contratos estatais e maior procura de investimento produtivo local.
A leitura geopolítica passa por três eixos. O primeiro é a diversificação económica. Angola continua a necessitar de reduzir a dependência petrolífera e ampliar sectores como agro-indústria, transformação, logística, construção, comércio e serviços. O segundo é a competição internacional por influência em África, onde a China mantém vantagem pela velocidade de financiamento, capacidade empresarial e presença acumulada. O terceiro é a autonomia estratégica angolana, que procura atrair capitais sem ficar completamente presa a um único centro externo.
Para Pequim, Angola continua a ser uma peça relevante da África lusófona. O país tem recursos naturais, posição atlântica, ligação histórica com Portugal e capacidade de funcionar como ponte entre o interior africano e os mercados marítimos. Investir em Icolo e Bengo permite à China reforçar a sua implantação junto de Luanda e, ao mesmo tempo, expandir redes empresariais em sectores menos expostos à volatilidade petrolífera.
Para Angola, o risco é conhecido: atrair investimento sem reproduzir dependência. O desafio será garantir transferência tecnológica, emprego local, formação profissional, participação de empresas angolanas e controlo soberano sobre sectores estratégicos. Se a cooperação se limitar à entrada de capital externo com baixa integração nacional, o impacto estrutural será limitado. Se, pelo contrário, gerar indústria, cadeias produtivas e capacidade logística própria, Icolo e Bengo poderá tornar-se uma peça relevante da nova geografia económica angolana.
A notícia confirma uma tendência de fundo: a China continua a ocupar espaço onde os parceiros ocidentais chegam tarde, com mais condicionalidades ou menor capacidade de execução. Angola, por sua vez, tenta usar essa presença para acelerar desenvolvimento provincial, diversificação e modernização económica.
O movimento em Icolo e Bengo não é apenas local. É uma pequena peça de um tabuleiro maior: a disputa pelo futuro económico da África lusófona, onde infraestruturas, zonas económicas, capital asiático e soberania produtiva vão definir a próxima década.
Fontes: ANGOP.


