La Iberofonía
Equipo de edición de La Iberofonía, medio de comunicación del Ateneo Iberófono Juan Latino.
Portugal vê no acordo União Europeia–Mercosul uma oportunidade para reforçar o seu papel como ponte económica entre a Europa e o Brasil. O Governo português afirmou, após encontro entre Luís Montenegro e Lula da Silva, que Lisboa pretende ser parceira do Brasil na sua projecção na economia europeia. A entrada provisória do acordo estava prevista para 1 de Maio, com Portugal a assumir uma função de facilitador nesse processo.
A importância portuguesa não está apenas na língua comum. Está na possibilidade de converter afinidade cultural, jurídica e empresarial em posição económica. Para empresas brasileiras, Portugal pode funcionar como porta de entrada para cadeias europeias de serviços, distribuição, tecnologia, consultoria, logística e investimento. Para empresas portuguesas, o Mercosul abre um mercado de grande escala em agroalimentar transformado, vinho, maquinaria, bens industriais, serviços especializados, construção, energia e soluções digitais.
A Representação da Comissão Europeia em Portugal informou que o acordo comercial provisório UE–Mercosul entrou em aplicação e prevê benefícios para agricultura e agroalimentar europeus, incluindo direitos mais baixos ou eliminação de tarifas. Segundo essa informação, a Comissão prevê um aumento de 50% das exportações agroalimentares da UE para a região, com os primeiros contingentes pautais e reduções aplicados a partir de 1 de Maio.
A escala do acordo é relevante para Lisboa. A própria Comissão Europeia apresentou a parceria UE–Mercosul como uma das maiores zonas comerciais do mundo, abrangendo cerca de 700 milhões de consumidores e com uma previsão de aumento de 39% das exportações anuais da União Europeia para o Mercosul, num valor de cerca de 49 mil milhões de euros.
Para o mercado português, a oportunidade é clara, mas não automática. Portugal tem vantagem cultural e linguística no Brasil, mas enfrenta limitações de escala. Empresas espanholas, francesas, alemãs, italianas e neerlandesas têm músculo financeiro e industrial superior em muitos sectores. Lisboa só ganhará peso real se transformar a afinidade luso-brasileira em contratos, presença empresarial e cadeias de valor.
Para o mercado espanhol, o impacto é distinto. Espanha dispõe de maior escala bancária, energética, alimentar, tecnológica e de infra-estruturas. A Moncloa recogió en abril la I Cumbre España-Brasil y señaló acuerdos bilaterales en economía, ciencia, cultura y políticas sociales, dentro de una relación que Madrid también intenta proyectar hacia Mercosur, UE-CELAC e Iberoamérica.
Así, Portugal y España no observan el Mercosur desde la misma posición. Portugal puede presentarse como puente natural con Brasil por lengua y relación histórica; España dispone de mayor capacidad empresarial para competir en varios sectores. El acuerdo abre oportunidades para ambos, pero también una competición ibérica por convertirse en intermediario europeo privilegiado ante Brasil y el Cono Sur.
Mas o acordo está longe de ser consensual. A Comissão Europeia apresenta o UE–Mercosul como uma oportunidade para aumentar exportações, abrir mercados e criar uma das maiores zonas comerciais do mundo, mas essa leitura económica convive com uma oposição forte em sectores agrícolas, ambientais e soberanistas. A própria aprovação de cláusulas de salvaguarda pelo Conselho da União Europeia confirma que Bruxelas reconhece riscos de choque sobre produtos agrícolas sensíveis e aumentos súbitos das importações provenientes do Mercosul.
Em Portugal, agricultores e sectores ligados ao mundo rural alertam que a abertura do mercado europeu a produtos agrícolas de grande escala pode pressionar explorações familiares, reduzir margens e agravar a dependência alimentar externa. A crítica principal não é apenas comercial: passa pela ideia de que produtores portugueses e europeus ficam obrigados a cumprir regras ambientais, sanitárias, laborais e burocráticas mais exigentes, enquanto competem com importações produzidas sob condições diferentes.
Em Espanha, a contestação tem sido ainda mais visível. Agricultores e criadores de gado bloquearam estradas e organizaram protestos contra o acordo, denunciando concorrência desleal, insegurança alimentar, falta de reciprocidade regulatória e risco para o sector primário. A mobilização espanhola não é isolada: protestos semelhantes ocorreram em França, Irlanda e outros países europeus, com especial resistência dos produtores pecuários e agrícolas mais expostos à entrada de carne, soja, açúcar, milho, aves e outros produtos do Mercosul.
O ponto decisivo é que o acordo pode beneficiar sectores exportadores, industriais e logísticos, mas também pode fragilizar produtores agrícolas que já enfrentam custos energéticos, pressão regulatória, margens estreitas e concorrência global. Para Portugal e Espanha, portanto, o Mercosul não deve ser apresentado como uma melhoria automática, mas como uma aposta de alto risco: abre oportunidades para empresas com capacidade de internacionalização, ao mesmo tempo que pode acelerar a perda de soberania alimentar, concentrar ainda mais o mercado e castigar explorações familiares que sustentam o território rural ibérico.


