La Iberofonía
Equipo de edición de La Iberofonía, medio de comunicación del Ateneo Iberófono Juan Latino.
O Brasil está a concentrar vários movimentos estratégicos ao mesmo tempo: a aplicação provisória do acordo Mercosul–União Europeia, a importância energética de Itaipu e o avanço industrial de empresas chinesas no mercado brasileiro. A soma destes três vectores mostra um país que deixou de ser apenas mercado consumidor ou exportador de matérias-primas: passou a ser território de disputa industrial, energética, comercial e diplomática.
A primeira frente é o acordo Mercosul–União Europeia, assinado em Janeiro de 2026 e com aplicação comercial provisória a partir de 1 de Maio. Segundo Xinhua, o presidente da ApexBrasil, Laudemir Muller, afirmou que o tratado abre aos países do Mercosul o acesso a um mercado de importações superior a três biliões de dólares. O responsável brasileiro destacou que o benefício inicial será sentido sobretudo pelas empresas exportadoras, que poderão aproveitar reduções tarifárias e melhores condições de entrada no mercado europeu.
Para o Brasil, o acordo não é apenas comercial. Trata-se de uma ferramenta para ampliar divisas, reforçar cadeias exportadoras, atrair investimentos e consolidar uma relação económica mais estável com a Europa. O próprio desenho do tratado, segundo a informação de Xinhua, favorece inicialmente o Mercosul porque mais produtos sul-americanos poderão entrar com tarifa zero na Europa do que produtos europeus no bloco sul-americano.
A segunda frente é energética. Itaipu Binacional, administrada por Brasil e Paraguai, completou 42 anos de produção ininterrupta com mais de 3.100 milhões de MWh gerados desde 1984. Em 2025, a central produziu 72.879.287 MWh, abastecendo 7% do mercado brasileiro e 88% do mercado paraguaio, segundo Xinhua.
Estes números explicam por que Itaipu é uma infra-estrutura estratégica. Para o Brasil, a central ajuda a estabilizar o sistema eléctrico e a responder a picos de procura. Para o Paraguai, representa uma base energética essencial e uma fonte de receitas. A modernização tecnológica em curso, com investimentos contratados de cerca de 670 milhões de dólares, procura garantir que a central continue operacional num sistema eléctrico cada vez mais condicionado por fontes intermitentes como solar e eólica.
A terceira frente é industrial e aponta para a China. CGTN informou que a chinesa Dongfeng Motor estuda produzir veículos numa fábrica da Nissan no Brasil e pretende aprofundar a sua presença no país durante a segunda metade de 2026. A entrada de uma fabricante chinesa numa unidade já instalada no território brasileiro indicaria uma estratégia de aproveitamento de capacidade industrial existente, redução de custos e aproximação ao mercado regional.
O quadro brasileiro, portanto, é de acumulação estratégica. O país negocia com a Europa pelo comércio, com a China pela indústria e preserva em Itaipu uma das suas grandes bases de segurança eléctrica. A notícia central é esta: o Brasil está a transformar o seu peso territorial, energético e industrial em poder de negociação. O desafio será evitar que essa posição seja capturada por interesses externos sem contrapartidas produtivas duradouras.
Fontes: Xinhua, CGTN.


